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· Reflexão

Ansiedade no nosso tempo: quando o sofrimento pede mais do que silêncio

Na perspectiva psicanalítica, a ansiedade remete à angústia, afeto central na constituição subjetiva e na relação do sujeito com o desejo.

texto sob imagem em sombra

Ansiedade talvez seja uma das palavras mais presentes no nosso cotidiano.

“Estou ansiosa.”
“Isso me dá ansiedade.”
“Minha ansiedade atacou.”
“Preciso controlar a ansiedade.”

Ela aparece nas conversas, nas redes sociais, no trabalho, nos relacionamentos e, naturalmente, nos consultórios. Às vezes, usamos a mesma palavra para falar de expectativa, medo, inquietação, preocupação, aceleração dos pensamentos, aperto no peito, dificuldade para dormir ou aquela sensação difícil de explicar de que alguma coisa não está bem.

E talvez seja justamente aí que uma pergunta se torne importante:

Quando chamamos tudo isso de ansiedade, estamos falando da mesma coisa?

A ansiedade pode envolver manifestações físicas e psíquicas muito intensas e, em determinadas situações, necessita de avaliação e acompanhamento por profissionais de saúde. Mas olhar apenas para o sintoma pode deixar uma parte importante da experiência de fora.

Porque existe uma diferença entre perguntar:

“Como faço para isso parar?”

e perguntar:

“Por que isso está acontecendo comigo desta maneira?”

É nessa segunda pergunta que a psicanálise encontra um de seus caminhos de escuta.

Nem toda ansiedade conta a mesma história

Duas pessoas podem chegar ao consultório dizendo exatamente a mesma coisa:

“Estou muito ansiosa.”

Uma delas pode estar diante de uma perda.

Outra, vivendo há anos sob exigências que parecem nunca terminar.

Alguém pode perceber a ansiedade sempre que precisa tomar uma decisão importante.

Outra pessoa pode senti-la justamente quando as coisas começam a dar certo.

Há quem fique angustiado diante da possibilidade de ser abandonado. Há quem se angustie quando percebe que está se aproximando demais de alguém.

O sintoma pode até receber o mesmo nome. A história que o sustenta, porém, não é necessariamente a mesma.

Por isso, para a psicanálise, não basta saber que uma pessoa “tem ansiedade”.

Importa perguntar:

Quando ela aparece?

O que estava acontecendo naquele momento?

O que se repete?

Que situações parecem despertá-la?

O que essa pessoa teme perder?

O que deseja e, ao mesmo tempo, parece temer desejar?

É uma mudança aparentemente pequena, mas bastante significativa: a atenção deixa de estar apenas sobre a ansiedade e se volta para o sujeito que está angustiado.

Ansiedade ou angústia?

Há uma curiosidade importante na própria história da psicanálise.

Freud utilizava a palavra alemã Angst, que recebeu diferentes traduções. Em parte das traduções de língua inglesa, consolidou-se como anxiety. Nas línguas latinas, tornou-se frequente o uso da palavra angústia.

A discussão não é apenas linguística.

No cotidiano, quando falamos em ansiedade, muitas vezes pensamos imediatamente em sintomas: coração acelerado, inquietação, preocupação excessiva, insônia, falta de ar, dificuldade de concentração.

Na tradição psicanalítica, falar em angústia abre outra dimensão da experiência.

Não significa que os sintomas físicos sejam irrelevantes. Muito pelo contrário. Significa perguntar também o que está acontecendo psiquicamente quando aquele sofrimento aparece.

A angústia pode surgir justamente nos pontos em que alguma coisa da nossa experiência não consegue ser facilmente explicada, organizada ou colocada em palavras.

É aquela sensação para a qual, às vezes, a pessoa sequer consegue oferecer uma causa muito clara.

“Minha vida está bem, mas eu não estou bem.”

“Não aconteceu nada, mas alguma coisa me aperta.”

“Eu sei que não deveria estar sentindo isso, mas estou.”

A psicanálise se interessa especialmente por esse desencontro entre aquilo que racionalmente sabemos e aquilo que, ainda assim, sentimos.

Freud também mudou de ideia sobre a angústia

Uma das coisas mais interessantes na obra de Freud é perceber que suas teorias não surgiram prontas. Ele reformulou conceitos ao longo dos anos, inclusive sua compreensão sobre a angústia.

Em seus primeiros trabalhos, no final do século XIX, Freud relacionava determinadas manifestações de angústia ao acúmulo de excitação que não encontrava elaboração psíquica e acabava encontrando expressão no corpo.

Décadas depois, em Inibição, sintoma e angústia, de 1926, sua compreensão havia se tornado mais complexa.

A angústia passa a ser pensada também como um sinal de perigo.

Diante da percepção de uma ameaça psíquica, o Eu produz angústia e mobiliza defesas.

Isso muda bastante nossa maneira de olhar para ela.

A angústia deixa de ser apenas uma espécie de intrusa indesejada que precisa ser expulsa. Em algumas situações, ela pode estar funcionando como um alarme.

E talvez o problema não esteja somente no fato de o alarme tocar.

Pode ser necessário perguntar:

O que ele está anunciando?

É claro que um alarme excessivamente disparado pode produzir enorme sofrimento e exigir cuidado. Mas simplesmente silenciá-lo não necessariamente esclarece por que ele começou a tocar.

Lacan e a angústia que não conseguimos explicar completamente

Jacques Lacan retomou a discussão freudiana e dedicou um de seus seminários inteiramente à angústia.

Uma de suas formulações mais conhecidas é:

“A angústia não é sem objeto.”

A frase pode soar estranha quando lida pela primeira vez.

Quando sentimos medo, normalmente conseguimos identificar aquilo que tememos: uma doença, uma demissão, uma prova, uma perda, uma situação concreta.

A angústia nem sempre se apresenta dessa maneira.

Às vezes existe alguma coisa ali, mas não conseguimos nomeá-la completamente.

É possível saber que se sente sem saber exatamente o que aquilo quer dizer.

Por isso Lacan também chamou a angústia de “o afeto que não engana”.

Não no sentido de que ela revelaria alguma verdade pronta, esperando para ser descoberta. Mas porque sua presença indica que algo importante está acontecendo na experiência daquele sujeito, ainda que ele próprio não consiga explicá-lo.

Talvez por isso a tentativa de racionalizar a angústia nem sempre funcione.

A pessoa sabe que “não tem motivo”.

Sabe que “está tudo bem”.

Sabe que “não deveria sentir aquilo”.

E continua sentindo.

O psiquismo, afinal, não obedece integralmente à lógica do “eu sei”.

Por que parecemos tão ansiosos hoje?

A angústia não foi inventada pelo século XXI. Ela faz parte da experiência humana há muito mais tempo do que nossos smartphones.

Mas seria difícil ignorar as características do tempo em que vivemos.

Estamos permanentemente conectados.

Recebemos mensagens enquanto trabalhamos. Trabalhamos enquanto descansamos. Respondemos e-mails durante o jantar. Acompanhamos a vida de dezenas ou centenas de pessoas todos os dias e, quase sem perceber, transformamos essas vidas em parâmetros para avaliar a nossa.

Paralelamente, nunca tivemos tantos recursos prometendo nos ajudar a administrar o próprio funcionamento.

Aplicativos controlam o sono.

Relógios contam nossos passos.

Plataformas medem produtividade.

Vídeos ensinam técnicas de respiração.

Outros ensinam como produzir mais, dormir melhor, organizar a rotina, melhorar o corpo, otimizar a carreira e, aparentemente, tornar-se a melhor versão de si mesmo antes do próximo domingo.

Há algo curioso nessa equação: nunca tivemos tantas ferramentas para administrar a vida e, ainda assim, tantas pessoas sentem que não estão conseguindo administrá-la.

Byung-Chul Han chama atenção para uma característica importante da sociedade contemporânea: saímos progressivamente de uma lógica centrada apenas no “você deve” e entramos também na lógica do “você pode”.

Você pode crescer.

Pode produzir.

Pode empreender.

Pode estudar.

Pode transformar seu corpo.

Pode construir uma carreira extraordinária.

Pode reinventar sua vida.

A princípio, isso parece libertador.

Mas o “você pode” pode esconder uma cobrança silenciosa:

se você pode, por que ainda não conseguiu?

Então o fracasso deixa de parecer consequência de limites, circunstâncias, contingências ou simplesmente da condição humana. Ele facilmente passa a ser vivido como defeito pessoal.

A pausa vira culpa.

O descanso parece improdutividade.

O sucesso dos outros se transforma em medida para avaliar a própria vida.

E mesmo quando conseguimos alguma coisa, existe rapidamente outra meta esperando na fila.

A vida vai adquirindo a estranha aparência de um projeto que nunca termina.

Talvez não estejamos apenas ansiosos. Talvez estejamos exaustos de precisar dar conta

Isso não significa que toda ansiedade seja causada pela sociedade contemporânea.

Seria simplista trocar uma explicação biológica absoluta por uma explicação social igualmente absoluta.

Cada sofrimento precisa ser compreendido em sua singularidade.

Mas também seria ingênuo imaginar que nossa maneira de trabalhar, consumir, relacionar-nos, desejar e medir nosso próprio valor não produz efeitos sobre a vida psíquica.

Existe hoje uma pressão constante para estar bem.

Não basta trabalhar. É preciso realizar-se profissionalmente.

Não basta ter relações. Elas precisam ser extraordinárias.

Não basta cuidar da saúde. É preciso performar saúde.

Não basta viver. Precisamos demonstrar que estamos vivendo bem.

Até o cuidado de si pode se transformar em mais uma tarefa na agenda.

Nesse cenário, a própria ansiedade passa facilmente a ser percebida como falha de desempenho:

“Preciso resolver isso porque está atrapalhando minha produtividade.”

E essa frase merece ser escutada com alguma atenção.

Porque talvez a pergunta não devesse ser apenas como fazer aquele sujeito voltar a produzir rapidamente.

Talvez também seja preciso perguntar o que aconteceu para que ele tenha chegado até ali.

E o que a psicanálise faz com a ansiedade?

A psicanálise não parte de uma fórmula universal para eliminar a ansiedade.

Isso não significa defender o sofrimento, romantizá-lo ou dizer que alguém deva simplesmente conviver com sintomas intensos.

Significa outra coisa.

Em análise, interessa compreender que lugar aquele sofrimento ocupa na história daquela pessoa.

Por que aparece naquele momento?

Que situações o intensificam?

O que costuma antecedê-lo?

Que relações se repetem?

Que conflitos aparecem?

Que perdas foram vividas?

Que desejos parecem difíceis de reconhecer?

Que palavras surgem repetidamente quando aquela pessoa fala de si?

Durante o processo analítico, a pessoa é convidada a falar e, pouco a pouco, pode começar a perceber relações que antes não estavam evidentes.

Entre acontecimentos.

Entre afetos.

Entre escolhas.

Entre relações atuais e experiências anteriores.

Entre aquilo que conscientemente deseja e aquilo que repetidamente faz.

É nesse percurso que conceitos como associação livre, transferência, interpretação e elaboração ganham sentido clínico.

Não são técnicas destinadas a produzir uma explicação rápida sobre a pessoa.

Servem para criar condições para que alguma coisa que vinha sendo apenas vivida possa também ser pensada, falada e elaborada.

Isso significa que a psicanálise é contra medicamentos?

Não.

Essa é uma oposição desnecessária e, em determinadas situações, perigosa.

Existem quadros em que avaliação médica e tratamento medicamentoso podem ser importantes ou necessários. Psicanálise, psicologia, psiquiatria e outras formas de cuidado podem participar de um mesmo percurso, conforme as necessidades de cada pessoa.

A questão específica que a psicanálise acrescenta é outra.

Mesmo quando um sintoma diminui, ainda podemos perguntar:

Por que ele apareceu?

Por que apareceu daquela forma?

Por que naquele momento da vida?

Que lugar ocupava na história daquele sujeito?

Reduzir um sofrimento pode ser profundamente necessário.

Compreendê-lo pode ser outro trabalho.

Uma coisa não precisa excluir a outra.

Nem tudo o que sentimos precisa ser eliminado imediatamente

Talvez esse seja um dos pontos mais contraculturais da psicanálise hoje.

Vivemos cercados por promessas de rapidez.

Dormir rápido.

Emagrecer rápido.

Produzir rápido.

Superar rápido.

Resolver rápido.

Até sofrer parece precisar obedecer a um cronograma.

Mas algumas experiências humanas não se deixam apressar.

Um luto precisa de tempo.

Uma perda precisa ser simbolizada.

Certos conflitos precisam primeiro ser reconhecidos.

Algumas repetições precisam ser percebidas antes que possamos fazer algo diferente com elas.

A psicanálise não pergunta apenas:

“Como podemos fazer você deixar de sentir isso?”

Pergunta também:

“O que acontece quando você sente isso?”

“O que isso toca em você?”

“Por que justamente assim?”

E talvez, em alguns momentos, a pergunta mais importante seja ainda mais simples:

“O que essa angústia está tentando dizer que você ainda não conseguiu escutar?”

Não existe uma resposta pronta.

Nem toda ansiedade esconde um grande acontecimento.

Nem todo sintoma possui uma tradução direta.

A análise não funciona como um dicionário no qual ansiedade significa uma determinada coisa, insônia outra e medo uma terceira.

O sujeito é singular.

E é justamente por isso que sua história precisa ser escutada.

Quando o sofrimento deixa de ser apenas suportado

Talvez o objetivo não seja imaginar uma vida completamente livre de angústia.

A angústia faz parte da experiência humana.

Desejar envolve incerteza.

Escolher significa renunciar a outras possibilidades.

Amar nos coloca diante da possibilidade de perder.

Crescer implica separações.

Viver significa não controlar inteiramente aquilo que acontecerá conosco.

Não existe técnica capaz de retirar tudo isso da existência.

Mas existe uma diferença importante entre sentir angústia e estar aprisionado por ela.

Entre viver um conflito e repeti-lo indefinidamente sem compreender por quê.

Entre sofrer e começar a construir palavras para aquilo que antes aparecia apenas como sintoma.

Talvez a contribuição da psicanálise esteja justamente aí.

Não em prometer uma vida sem ansiedade, mas em oferecer um espaço no qual seja possível deixar de perguntar apenas:

“Como faço isso desaparecer?”

e começar, pouco a pouco, a perguntar:

“O que há de mim nisso que estou sentindo?”

Porque, algumas vezes, quando o sofrimento encontra palavras, ele já não precisa falar tão alto pelo corpo, pelas repetições ou pela angústia.

E escutar aquilo que insiste pode ser o início de uma maneira diferente de se relacionar consigo mesmo.

Thayana Macêdo. Natal/RN, 07/09/2026

Para continuar a leitura

FREUD, Sigmund. Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada neurose de angústia. 1895.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. 1926.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: WHO, 2022.

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