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· Reflexão

“Meu pai nunca me fez falta”

“Meu pai nunca me fez falta”: o que pode existir dentro dessa frase?

pena e nanquim

“Meu pai nunca me fez falta”: o que pode existir dentro dessa frase?

Um ensaio psicanalítico sobre ausência, função, amor e as diferentes maneiras de contar a própria história.

Há datas que não chegam sozinhas.

Elas chegam acompanhadas de fotografias, lembranças, homenagens, silêncios e ausências. No Dia dos Pais, enquanto muitos celebram presenças, outros inevitavelmente se encontram diante de histórias mais difíceis de nomear.

Talvez os divãs também recebam um pouco mais disso nesses dias.

O pai presente. O pai ausente. O pai que morreu. O pai que abandonou. O pai que esteve fisicamente, mas pouco pôde ocupar afetivamente aquele lugar. O pai idealizado. O pai ressentido. O pai desconhecido. O padrasto. O avô. A mãe que criou sozinha. As duas mães. Os dois pais. A família reconstruída depois de tantas rupturas. E também aqueles vínculos familiares que não cabem confortavelmente nas categorias tradicionais.

Foi nesse contexto que me deparei, nas redes sociais, com algumas publicações semelhantes. Uma delas dizia:

“Minha mãe é tão incrível que meu pai nunca me fez falta.”

É uma frase bonita.

Talvez seja absolutamente verdadeira para quem a escreveu.

Mas, para quem começa a aprender a escutar psicanaliticamente, existe nela uma palavra particularmente interessante:

falta.

Quando “pai” não significa apenas o homem chamado pai

Antes de qualquer reflexão, é necessário fazer uma distinção.

Quando a psicanálise fala em funções materna e paterna, não deveríamos reduzir automaticamente essas funções à anatomia, ao gênero ou ao modelo tradicional composto por pai, mãe e filhos.

A realidade humana é muito mais plural.

Uma criança pode crescer com uma mãe e um pai, com apenas um deles, com duas mães, dois pais, avós, padrastos, madrastas, famílias extensas ou outras configurações de cuidado.

E nenhuma dessas configurações, isoladamente, permite concluir como será a constituição psíquica daquela criança.

A pergunta psicanalítica é outra.

Importa compreender quem e o que ocupou determinadas funções na experiência psíquica daquele sujeito.

Quem cuidou?

Quem ofereceu segurança?

Quem apresentou limites?

Quem introduziu a experiência de que o outro não existe exclusivamente para satisfazer seus desejos?

Quem ajudou aquela criança a perceber que há um mundo para além da relação imediata com aquele que cuida?

Quem participou de sua entrada no universo das regras, das diferenças, das interdições, da linguagem, da cultura?

Essas funções podem circular entre diferentes pessoas e relações. E a própria teoria psicanalítica, dependendo do autor que tomemos como referência, formulará essa questão de maneiras diferentes.

Por isso, falar em função paterna não deveria significar decretar que toda criança necessita necessariamente de um homem exercendo determinado papel.

Seria transformar uma questão psíquica complexa numa fotografia de família.

E a psicanálise deveria justamente resistir a simplificações desse tipo.

Mas voltemos à frase

“Minha mãe é tão incrível que meu pai nunca me fez falta.”

Talvez ela queira dizer exatamente aquilo que diz.

Talvez alguém tenha crescido cercado de amor, cuidado, proteção e referências suficientes e não experimente a ausência do pai como sofrimento.

Não precisamos procurar uma ferida escondida em toda pessoa que cresceu sem um dos genitores.

A psicanálise não deveria fabricar traumas onde o sujeito não os apresenta.

Mas também não deveria se apressar em concluir que a ausência não produziu efeitos apenas porque alguém afirma que “não sentiu falta”.

É aí que começa a escuta.

Porque uma das coisas que Freud nos ensinou foi justamente a desconfiar da equivalência perfeita entre aquilo que sabemos sobre nós mesmos e tudo aquilo que nos constitui. O psiquismo não se reduz à consciência. Desejos, conflitos, defesas e experiências podem produzir efeitos sem que possamos imediatamente reconhecê-los.

Por isso, diante daquela frase, um analista provavelmente não responderia:

“Claro que seu pai fez falta.”

Mas talvez também não respondesse simplesmente:

“Então ele realmente não fez.”

Talvez apenas escutasse.

Porque “não me fez falta” pode contar muitas histórias.

Pode ser gratidão

Pode ser a maneira encontrada por alguém para reconhecer uma mãe que esteve extraordinariamente presente.

“Ela trabalhou, cuidou, protegeu, educou, acolheu. Quando olho para minha infância, não me lembro de uma casa vazia. Lembro dela.”

Nesse caso, falar da ausência paterna pode ser também falar da abundância afetiva encontrada em outros vínculos.

E há beleza nisso.

Pode ser elaboração

Também pode ser que aquela ausência tenha doído um dia.

Talvez tenha havido perguntas.

Talvez aniversários esperando telefonemas.

Talvez apresentações escolares procurando alguém na plateia.

Talvez comparações com outras famílias.

E talvez, depois de muitos anos, aquela ausência tenha encontrado outro lugar dentro da história.

Ressignificar uma ausência não significa apagar aquilo que aconteceu.

Significa poder contar a própria história sem continuar vivendo inteiramente dentro da ferida que ela produziu.

Nesse sentido, “ele não me fez falta” pode ser menos uma descrição da infância e mais uma conquista do adulto que hoje consegue olhar para ela.

Pode ser proteção

Mas há outra possibilidade.

Às vezes aprendemos a não precisar daquilo que repetidamente não podemos ter.

Quando desejar alguém se torna doloroso demais, o psiquismo pode encontrar maneiras de diminuir a importância daquele desejo.

Nesse caso, “não precisei dele” pode guardar, em algum lugar, uma história anterior:

“Precisei, mas ele não veio.”

Isso não significa que toda pessoa que afirma não ter sentido falta esteja se defendendo.

Significa apenas que, em algumas histórias, a autossuficiência pode ter sido uma forma inteligente de sobrevivência psíquica.

O que um dia protegeu não precisa ser tratado com desprezo quando finalmente conseguimos compreendê-lo.

Pode ser lealdade

Existe ainda uma possibilidade particularmente delicada.

Imagine uma criança que viu a mãe trabalhar, renunciar, lutar e sustentar praticamente sozinha uma família.

Ela cresceu ouvindo, direta ou indiretamente:

“Eu fiz tudo por vocês.”

Talvez tenha feito mesmo.

Nesse cenário, reconhecer a falta do pai pode adquirir um significado que ultrapassa o próprio pai.

Pode parecer uma ingratidão com a mãe.

Como se dizer:

“Eu senti falta dele”

significasse:

“Você não foi suficiente.”

Então talvez o sujeito precise dizer:

“Ele nunca me fez falta.”

E, silenciosamente, talvez esteja dizendo também:

“Mãe, tudo o que você fez foi suficiente para mim.”

Nesse caso, a frase pode ser simultaneamente amor, gratidão e lealdade.

Pode ser raiva

Também podemos transformar em indiferença aquilo que um dia nos feriu.

“Não fez falta” pode significar:

“Não quero mais saber.”

“Não merece ocupar espaço na minha história.”

“Aprendi a viver sem ele.”

Há ausências diante das quais o sujeito precisa, em algum momento, retirar seu investimento.

Isso também pode fazer parte de uma elaboração.

Nem toda reconciliação exige reencontro.

Nem toda elaboração termina em perdão.

E nem toda análise deveria conduzir alguém de volta aos braços daquele que o feriu.

Pode ser identificação

Há ainda quem cresça ao lado daquela mãe “que deu conta de tudo” e faça dela não apenas objeto de amor, mas modelo de existência.

A criança aprende:

“Minha mãe nunca precisou de ninguém.”

Mais tarde:

“Nós nunca precisamos dele.”

E, talvez, muitos anos depois:

“Eu também não preciso de ninguém.”

Nesse momento, a pergunta já deixou de ser sobre o pai.

Passou a ser sobre como aquele sujeito aprendeu a se relacionar com a própria necessidade do outro.

Não há como saber se isso acontecerá.

Mas, se acontecer, talvez aquela antiga frase sobre o pai revele algo muito maior sobre amor, dependência e vulnerabilidade.

E pode simplesmente não ter feito falta

Esta possibilidade precisa permanecer na mesa.

Porque existe um risco curioso quando começamos a estudar psicanálise: passamos a procurar profundidades em toda parte e, às vezes, cavamos onde não havia buraco.

Nem toda ausência paterna produz trauma.

Nem toda mãe dedicada está sendo idealizada.

Nem toda afirmação de autossuficiência é defesa.

Nem todo “não senti falta” significa secretamente “senti muita falta”.

Às vezes, para aquele sujeito, naquela história, não fez falta mesmo.

E uma boa escuta precisa ser capaz de suportar também essa resposta.

Talvez a questão seja outra

O que me interessa naquela publicação, portanto, não é decidir se o pai fez ou não fez falta.

É perceber a quantidade de histórias que podem caber numa frase tão pequena.

Porque existe uma diferença entre a ausência concreta de uma pessoa e aquilo que essa ausência passa a representar psiquicamente.

Uma ausência pode tornar-se ferida.

Pode tornar-se raiva.

Pode tornar-se indiferença.

Pode transformar-se em gratidão por quem ficou.

Pode produzir identificações.

Pode organizar escolhas amorosas.

Pode ser elaborada.

Pode perder importância.

Pode continuar sendo pergunta.

E pode adquirir significados diferentes em momentos diferentes da mesma vida.

Talvez aos dez anos tenha sido falta.

Aos vinte, raiva.

Aos trinta, indiferença.

Aos quarenta, curiosidade.

Ou talvez nunca tenha sido nada disso.

O sujeito não é obrigado a permanecer fiel à primeira versão que construiu sobre a própria história.

Talvez seja isso que chegue ao divã

O divã não deveria ser o lugar em que alguém descobre que sofreu aquilo que o analista decidiu que deveria ter sofrido.

Deveria ser justamente o contrário.

Um lugar suficientemente livre para que alguém possa descobrir o que sua própria história significou para si.

Por isso, se alguém dissesse:

“Minha mãe foi tão incrível que meu pai nunca me fez falta”,

talvez não fosse necessário contradizer.

Nem confirmar.

Nem explicar.

Talvez fosse preciso apenas escutar.

Escutar o “minha mãe”.

Escutar o “tão incrível”.

Escutar o “meu pai”.

Escutar o “nunca”.

E, sobretudo, escutar a “falta”.

A atenção analítica exige precisamente esse cuidado para não substituir a associação do sujeito pelas hipóteses daquele que o escuta. 

Porque talvez haja uma história inteira dentro daquela frase.

Ou talvez não haja.

E existe algo profundamente respeitoso em não decidir isso antes de quem a pronunciou.

Talvez seja essa uma das delicadezas da psicanálise: ela não precisa devolver o pai a quem aprendeu a viver sem ele, nem retirar a mãe do lugar de grandeza que alguém lhe concedeu.

Ela pode apenas ajudar o sujeito a descobrir se a história que conta sobre sua ausência ainda lhe serve.

E, se servir, que possa habitá-la em paz.

Se já não servir, que possa escrevê-la novamente.

Porque ressignificar uma ausência não é obrigatoriamente preenchê-la. Às vezes, é apenas conseguir dar a ela um lugar na própria história que já não doa, não aprisione e não precise ser negado.

Thayana Macêdo, Natal/RN 10/08/26.

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