· Reflexão

Por que uma crítica às vezes dói tanto?

Algumas críticas continuam ecoando depois da conversa. Este texto convida a olhar para o que, em nós, pode ter sido atingido.

Nanquim é letras e sobras

Você já saiu de uma conversa pensando:

“Eu não devia ter me incomodado tanto com isso.”

A pessoa fez um comentário. Discordou de você. Não respondeu como você esperava. Não reconheceu alguma coisa que você fez. Preferiu outra pessoa. Ou simplesmente disse algo que, objetivamente, nem parecia tão grave.

Mas ficou.

Você tomou banho e lembrou.

Foi fazer outra coisa e a conversa voltou.

Horas depois, já tinha até pensado numa resposta melhor. Daquelas excelentes que costumam chegar quando não servem mais para nada.

É curioso.

Às vezes, o que aconteceu foi pequeno. O que aquilo encontrou dentro da gente, nem tanto.

Uma crítica pode esbarrar justamente no lugar em que precisamos nos sentir competentes.

Uma rejeição pode encontrar alguém que se esforçou a vida inteira para ser escolhida.

Um erro pode ser especialmente doloroso para quem aprendeu que precisava acertar.

E não é preciso haver nada extraordinário nisso.

Todos nós construímos alguma ideia sobre quem somos.

Sou forte.

Sou inteligente.

Sou uma boa mãe.

Sou competente.

Sou independente.

Sou alguém em quem se pode confiar.

Sou aquela pessoa que resolve.

Essas imagens ajudam a organizar nossa história. O problema começa quando deixam de ser apenas uma forma de nos reconhecermos e passam a funcionar como uma condição:

eu preciso continuar sendo essa pessoa.

Aí um simples “você errou” pode doer muito mais do que o erro.

Porque já não estamos falando somente daquilo que fizemos.

Estamos falando de quem acreditamos ser.

É nesse ponto que uma palavra bastante maltratada pela internet fica interessante: narcisismo.

Nas redes sociais, “narcisista” virou quase um personagem pronto. É o vaidoso, manipulador, arrogante, apaixonado por si mesmo. A psicanálise trata o narcisismo de maneira bem mais ampla.

Ele também diz respeito à relação que construímos com a nossa própria imagem e ao valor que depositamos nela.

Por isso, nem sempre o narcisismo aparece dizendo:

“Olhem como eu sou incrível.”

Às vezes, ele aparece baixinho:

“Espero que ninguém perceba que eu não sou tudo isso.”

Ou:

“Eu preciso que gostem de mim.”

“Não posso decepcionar.”

“Tenho que dar conta.”

“Não posso demonstrar fraqueza.”

E existe ainda uma voz particularmente eficiente em fiscalizar se estamos cumprindo todas essas exigências.

Ela não precisa de convite.

“Você deveria ter feito melhor.”

“Não precisava ter falado aquilo.”

“Olha como fulano consegue.”

“Você já deveria ter superado isso.”

“De novo?”

Freud deu um nome a uma parte importante dessa dinâmica: Supereu.

Não é simplesmente aquela conhecida “voz da consciência”. É algo mais complexo. Para a conversa que estamos tendo aqui, basta guardar uma coisa: nem tudo o que nos acusa por dentro está necessariamente dizendo a verdade sobre nós.

Às vezes somos muito mais generosos com os outros do que conosco.

Um amigo erra e dizemos:

“Acontece.”

Nós erramos e abrimos uma investigação interna, constituímos comissão, ouvimos testemunhas e já chegamos ao julgamento com a sentença pronta.

E assim seguimos tentando sustentar certas versões de nós mesmos.

A forte.

O competente.

A que não precisa de ninguém.

O que nunca perde o controle.

A que cuida de todo mundo.

O que sempre sabe o que fazer.

Até que alguma coisa acontece e essa imagem balança.

É desconfortável.

Mas também pode ser interessante.

Porque, em vez de correr imediatamente para reconstruí-la, podemos olhar para o que ficou exposto.

Não para descobrir qual é o nosso “verdadeiro eu”, escondido em algum lugar secreto.

Só para fazer uma pergunta um pouco diferente daquelas que costumamos fazer:

Por que eu preciso tanto ser essa pessoa?

Essa pergunta não exige resposta imediata.

Mas pode acompanhar você da próxima vez que uma crítica durar mais do que a conversa em que foi feita.

Ou quando um elogio fizer falta demais.

Ou quando errar parecer insuportável.

Ou quando surgir aquela vontade urgente de provar alguma coisa a alguém.

Nessas horas, antes de responder, explicar, convencer ou se defender, pode ser interessante perceber:

o que, em mim, acabou de ser atingido?

Às vezes, uma pequena irritação abre uma porta enorme.


Thayana Macêdo, 08/09/2026.

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