· Reflexão

Quando aquilo que sentimos encontra palavras

Às vezes, durante uma análise, contamos uma história que já contamos muitas vezes e, de repente, escutamos alguma coisa diferente naquilo que acabamos de dizer.

Psicanalista em Natal

Tem coisas que a gente sente muito antes de conseguir explicar.

Um aperto no peito. Uma irritação maior do que a situação parecia justificar. Uma vontade de chorar no meio de um assunto banal. Um medo que sabemos ser exagerado, mas continua ali.

E então a gente fala.

Às vezes, durante uma análise, contamos uma história que já contamos muitas vezes e, de repente, escutamos alguma coisa diferente naquilo que acabamos de dizer.

A história não mudou.

Mas alguma coisa nela mudou de lugar.

É por isso que falar, em análise, não é simplesmente contar ao analista o que aconteceu durante a semana. A fala faz parte do próprio trabalho analítico.

Quando falar também é escutar

Quando pensamos silenciosamente, podemos passar horas circulando pelas mesmas ideias. Ao falar, precisamos transformar parte dessa experiência em linguagem. E, enquanto falamos, também nos escutamos.

“Eu sempre faço isso.”

“Eu preciso dar conta.”

“Não posso decepcionar ninguém.”

Algumas frases podem ser repetidas durante anos até que, em determinado momento, sejam realmente ouvidas.

Na psicanálise, isso importa porque nem tudo o que aparece na fala foi cuidadosamente escolhido. Há repetições, pausas, esquecimentos, contradições, mudanças de assunto e palavras que escapam. Às vezes começamos falando sobre o trabalho e, sem perceber exatamente como chegamos ali, estamos falando do nosso pai.

A fala não serve apenas para contar aquilo que já sabemos sobre nós. Ela também pode nos aproximar daquilo que ainda não sabemos que sabemos.

E o cérebro nisso tudo?

A neurociência encontrou algo interessante: colocar experiências emocionais em palavras pode modificar a maneira como o cérebro responde a elas.

Alguns estudos chamam isso de affect labeling. O nome parece complicado, mas a ideia é simples: dar nome ao que estamos sentindo.

Quando fazemos isso, algumas áreas do cérebro envolvidas com nossas emoções e com a maneira como lidamos com elas podem responder de forma diferente.

Uma dessas áreas é chamada de amígdala. E não, não estamos falando das amígdalas da garganta. Existe também uma pequena estrutura no cérebro com esse nome, envolvida na forma como percebemos e reagimos a situações emocionalmente importantes, especialmente aquelas que despertam alerta, medo ou ameaça.

Ao mesmo tempo, outras regiões do cérebro participam da organização e da regulação dessas respostas.

Em outras palavras: quando uma emoção começa a ganhar palavras, alguma coisa também pode mudar na maneira como o cérebro lida com aquela experiência.

Isso não significa que dizer “estou triste” faça a tristeza desaparecer. Tampouco significa que a neurociência tenha descoberto, por uma ressonância magnética, “como a psicanálise funciona”.

Mas nos oferece uma pista importante: transformar uma experiência emocional em linguagem não é indiferente ao cérebro.

Mas análise não é aprender o nome das emoções

Podemos saber perfeitamente que estamos com raiva e continuar sem compreender por que determinada situação nos provoca tanta raiva.

Podemos reconhecer o medo de sermos abandonados e ainda precisar perguntar:

Por que determinadas distâncias são sentidas por mim como abandono?

É nesse ponto que a fala deixa de ser apenas descrição e começa a se tornar investigação.

Nosso cérebro também não é uma estrutura congelada. As experiências participam continuamente da maneira como percebemos e respondemos ao mundo. Essa capacidade de mudança está relacionada à neuroplasticidade.

Isso não significa que elaborar uma experiência apague aquilo que aconteceu.

A história continua existindo.

O que pode mudar é o lugar que essa história ocupa dentro de nós.

Quando nos ouvimos

Quem passa por uma análise pode viver uma experiência curiosa: dizer alguma coisa e ficar em silêncio logo depois.

Não porque o analista tenha apresentado uma resposta extraordinária.

Mas porque a própria pessoa acabou de ouvir o que disse.

A neurociência consegue observar uma parte dessa história. A psicanálise se interessa também por outra pergunta: por que justamente essas palavras, essa lembrança, esse medo ou esse silêncio para essa pessoa?

Não precisamos transformar uma na explicação da outra.

Podemos observar onde elas se encontram.

Porque falar não muda o passado.

Mas algumas palavras podem mudar a maneira como continuamos carregando esse passado conosco.

E, às vezes, quando aquilo que sentimos encontra palavras, começamos finalmente a escutar a nós mesmos.


Thayana Macêdo, psicanalista.


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