Thayana MacêdoTodos os escritos

· Reflexão

Quando o discurso ocupa o lugar do sujeito

Vivemos uma época em que os acontecimentos chegam até nós antes mesmo que possamos pensá-los.

mão segurando café e um livro

Uma reflexão psicanalítica sobre o debate público contemporâneo…

Vivemos uma época em que os acontecimentos chegam até nós antes mesmo que possamos pensá-los.

Um crime ocorre. Em poucos minutos surgem vídeos, opiniões, recortes, estatísticas, campanhas, julgamentos e posicionamentos. O espaço para a elaboração parece cada vez menor. Antes que o sujeito possa perguntar “o que aconteceu?”, já lhe perguntam “de que lado você está?”.

Recentemente, voltou ao debate público o conhecido caso de Elize Matsunaga, e fui alcançada por um post no Instagram que dizia:

“Uma mulher matou um homem em 2012 e o Brasil não esquece. Ontem quatro mulheres foram mortas por homens. Amanhã ninguém lembra.”

Não pude deixar de refletir.

Sou mulher e preciso dizer que independentemente da legítima preocupação com a violência contra a mulher, a publicação suscita uma questão que talvez pertença mais à psicanálise do que à política. Não apenas o que ela afirma, mas como ela organiza nosso modo de pensar.

Acredito que a psicanálise não elimina a polarização, ela pode perguntar o que a polarização produz no sujeito.

Quando um paciente atravessa a porta do consultório, ele não chega como representante de um grupo social. Não chega como “um homem”, “uma mulher”, “uma vítima”, “um agressor”, “um conservador” ou “um progressista”. Verdadeiramente ele chega como sujeito. E justamente por isso a escuta analítica deve suspender, tanto quanto possível, as classificações antecipadas.

Enquanto o debate público frequentemente organiza a realidade em polos opostos, a psicanálise insiste em perguntar: Quem é esse sujeito? Que história o constitui? Que conflitos o atravessam? Que desejos o movem? Que sofrimento encontra formas particulares de expressão?

Essa diferença metodológica talvez nunca tenha sido tão importante quanto agora. Poque parece haver um desaparecimento da singularidade – uma característica marcante dos discursos contemporâneos é a substituição progressiva da singularidade pelas identidades coletivas.

As pessoas deixam de aparecer como sujeitos para ocupar lugares previamente definidos. Homens. Mulheres. Vítimas. Agressores. Oprimidos. Opressores. Tudo em uma constante dicotomia.

Essas categorias possuem evidente importância sociológica, jurídica e política. Indiscutivelmente, não faz sentido negá-las. Entretanto, a teoria, mas para além, a clínica psicanalítica nos lembra diariamente que nenhuma delas esgota um sujeito.

O inconsciente não se organiza segundo categorias identitárias. Ele se manifesta na singularidade da história de cada sujeito. Se apresenta através de histórias singulares, observa os sintomas, escuta os sonhos, olha para os lapsos, procura dar ouvidos às repetições. Fato é que o sofrimento nunca se apresenta exatamente da mesma forma em duas pessoas.

O que me espantou foi ver o sofrimento, ao menos parecer, se transforma em argumento.

Pensei ao ver o post: um dos fenômenos mais delicados da comunicação contemporânea tem sido a instrumentalização do sofrimento. Me parece que mortes deixam de ser tragédias humanas para se tornarem argumentos em disputas narrativas.

Então a dor, algo tão humano, passa a cumprir uma função retórica, as comparações são construídas, rapidamente indignações são organizadas, aí hierarquias de sofrimento começam a surgir.

Freud já observava que a inserção do indivíduo em uma massa modifica o funcionamento do eu. Identificações coletivas intensificam afetos, reduzem o espaço para a dúvida e favorecem respostas compartilhadas. Embora Freud escrevesse em outro contexto histórico, sua reflexão ajuda a compreender por que determinados discursos encontram hoje tamanha capacidade de mobilização nas redes sociais.

Penso não ser confortável à psicanálise este terreno. Não porque ignore a dimensão social da violência, mas porque sabe que cada sofrimento possui uma história própria que não pode ser reduzida à função que desempenha em um discurso. A singularidade desaparece justamente quando o sujeito se torna exemplo.

Freud mostrou que o pensamento nem sempre governa nossos afetos. Ele nos ensina que frequentemente ocorre o contrário, primeiro somos afetados e então vemos: o afeto antes do pensamento. Porque, é sabido, depois organizamos racionalmente aquilo que já sentimos. Ao menos é bom que assim seja.

Os discursos contemporâneos conhecem muito bem essa dinâmica, mas grande parte deles não pretende promover reflexão. Na verdade, pretende produzir impacto emocional imediato. Porque midiaticamente interessa mais: indignação – medo – raiva. E aí aparecem: identificação, o bom e velho – sentimento de pertencimento.

Do ponto de vista psicanalítico, podemos pensar na pergunta não sob a ótica de concordarmos ou discordarmos de determinado discurso.

Podemos perguntar: Que afeto/sentimento este discurso procura produzir em nós?

E, principalmente, o que acontece com nossa capacidade de pensar depois que somos capturados por esse afeto?

Essa talvez seja uma das grandes tarefas da psicanálise contemporânea. Porque os pacientes chegam ao consultório atravessados por discursos sociais intensos. A verdade é que eles chegam depois de consumir horas de redes sociais, narrativas políticas, que já se encarregam de criar diagnósticos rápidos. Chegam munidos de posts e prints de discursos sobre autoestima, trauma, masculinidade, feminilidade, sucesso, fracasso e identidade.

Indiscutivelmente, nada disso permanece do lado de fora do consultório. Tudo isso comparece na clínica e não apenas como opinião, mas como material psíquico. São as identificações, as ideais, as culpas. Chegam como vergonha, como angústia/ansiedade, como formas de nomear ou de evitar o próprio sofrimento.

Escutar um sujeito hoje implica, necessariamente, escutar também os discursos que passaram a habitá-lo.

Penso que, talvez, o maior desafio não seja oferecer respostas. Porque se há algo que a tradição psicanalítica nos ensina, desde Freud, é a desconfiança diante das respostas excessivamente rápidas.

Isso não significa substituir as análises produzidas pelo Direito, pela Sociologia, pela Criminologia ou pela Saúde Pública. Cada campo possui seu objeto e seu método. A contribuição específica da psicanálise consiste em perguntar como esses acontecimentos e discursos são apropriados pelo sujeito e inscritos em sua economia psíquica.

Nossa tarefa talvez seja outra. Passa por sustentar um espaço onde o pensamento possa sobreviver à velocidade dos afetos. Onde o sujeito possa recuperar algo de sua singularidade antes de ser completamente capturado pelas identidades coletivas, onde seja possível perguntar, antes de julgar. Onde a complexidade não seja confundida com relativismo. Mais ainda, onde a escuta permaneça mais forte do que a necessidade de tomar partido a qualquer custo.

O tempo passa rápido e o século XXI parece nos colocar diante de uma exigência inédita: Não basta ao psicanalista conhecer a teoria do inconsciente. É preciso compreender também os discursos que moldam o imaginário coletivo e atravessam, diariamente, a subjetividade daqueles que nos procuram.

Isso não significa transformar a clínica em espaço de debate político – Jamais! Significa reconhecer que o sujeito contemporâneo chega ao consultório constituído, também, pelas narrativas que circulam no espaço público.

Precisamos refletir porque, mais do que nunca, a ética da psicanálise talvez consista em preservar aquilo que os discursos frequentemente sacrificam: a singularidade do sujeito.

Por fim, precisamos evitar dois extremos igualmente perigosos. O primeiro é a neutralidade ingênua, como se os fenômenos sociais não atravessassem o psiquismo. Eles atravessam, e profundamente.

O segundo é transformar a psicanálise em um instrumento de confirmação de ideologias prévias. Quando o analista já sabe, antes de escutar, quem é a vítima, quem é o culpado e qual deve ser o sentido do sofrimento apresentado, ele deixa de ocupar o lugar analítico para ocupar o lugar do militante, do moralista ou do juiz.

Penso que a clínica exige outra postura. Ela exige suportar a complexidade sem apagá-la. É justamente nesse ponto que a psicanálise pode oferecer uma contribuição singular ao nosso tempo: lembrar que, por trás de todo discurso coletivo, continua existindo alguém cuja história não cabe inteiramente em nenhuma narrativa. E é esse alguém que entra no consultório.

Thayana Macêdo. Natal/RN, 27.07.2026.

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