· Reflexão

Quando os sonhos continuam uma conversa

Na psicanálise, os sonhos não trazem respostas prontas. Eles podem abrir caminhos para escutarmos aquilo que nossa história ainda tem a dizer.

Homem e carro

Ele tinha pouco mais de dezoito anos quando escreveu uma carta para o irmão.

O irmão era mais velho. Entre os dois havia coisas difíceis de dizer, dessas que vão se acumulando nas relações até que já não sabemos exatamente onde começou o incômodo. Naquela idade, encontrou na escrita uma maneira de falar.

Escreveu o que sentia.

Não sabemos se colocou tudo. Provavelmente não. Raramente conseguimos colocar tudo quando tentamos explicar a alguém o que uma relação fez conosco. Mas escreveu o que pôde.

Depois disso, a vida aconteceu.

Os anos passaram, os caminhos se afastaram e os dois praticamente deixaram de se falar. O que um dia havia sido conflito foi ganhando aquela aparência que algumas histórias adquirem com o tempo: a de assunto encerrado.

Até que o irmão mais velho adoeceu.

Perto da morte, contou que também havia escrito uma carta. Uma carta para o irmão mais novo.

A carta existia.

Mas ele nunca foi buscá-la.

O irmão morreu.

E durante muitos anos isso pareceu não ser exatamente um problema. Não havia uma inquietação permanente sobre o conteúdo da carta. Ele não passava os dias imaginando o que o irmão teria escrito. Não organizava a vida em torno daquela ausência.

Se alguém perguntasse, provavelmente diria que aquela história estava resolvida.

Então, em um momento da vida, ele começou uma análise.

E algumas histórias têm um comportamento curioso quando encontram um lugar onde podem ser contadas: começam a se movimentar.

Não necessariamente porque estavam escondidas. Também não porque a pessoa estivesse evitando falar sobre elas conscientemente. Às vezes estavam simplesmente guardadas naquele lugar em que colocamos as coisas para as quais já encontramos uma explicação.

“Foi assim.”

“Já passou.”

“Não havia mais o que fazer.”

São frases verdadeiras.

Mas uma das coisas que a psicanálise nos convida a perceber é que uma história pode ter terminado na realidade sem ter terminado inteiramente dentro de nós.

Foi assim que o irmão começou a reaparecer.

Nas lembranças, nas associações feitas durante as sessões, em perguntas que antes não pareciam necessárias.

E nos sonhos.

Ele já havia sonhado algumas vezes com o irmão. Um desses sonhos, porém, permanecera especialmente vivo em sua memória.

No sonho, o irmão lhe dava um carro.

Nada de extraordinário, considerando a liberdade que os sonhos têm para construir suas histórias. Pessoas mortas conversam conosco. Casas conhecidas aparecem em cidades onde nunca estivemos. Alguém pode ter o rosto de uma pessoa e a voz de outra. Podemos voltar à infância tendo o corpo que temos hoje.

O estranho aconteceu quando ele acordou.

Naquele dia, soube que havia sido sorteado em um consórcio.

Era um carro.

A coincidência era grande demais para passar despercebida.

E aqui existe uma tentação quase inevitável: perguntar se aquele havia sido um sonho premonitório.

A psicanálise, porém, pode escolher outro caminho.

Ela não precisa decidir se o sonho previu alguma coisa. Pode se interessar por uma pergunta diferente:

por que foi o irmão quem apareceu entregando o carro?

Perceba a mudança.

A pergunta deixa de ser “o que vai acontecer?” e passa a ser “o que isso toca em mim?”.

É aí que o sonho deixa de ser tratado como oráculo e começa a ser escutado como uma produção de quem sonhou.

Freud deu aos sonhos um lugar central porque percebeu que eles não eram apenas imagens soltas do sono. Neles podem aparecer pensamentos, lembranças, desejos, conflitos e afetos que nem sempre reconhecemos facilmente quando estamos acordados. Mas o sonho não costuma falar de maneira organizada. Ele mistura, desloca, junta pessoas, transforma ideias em cenas, esconde uma coisa dentro de outra.

É o que a psicanálise chama de trabalho do sonho: aquilo que transforma pensamentos e conteúdos psíquicos na história que conseguimos lembrar ao acordar.

Talvez possamos dizer de uma maneira mais simples: o sonho não entrega um relatório.

Ele monta uma cena.

E por isso interpretá-lo não significa abrir um dicionário.

“Carro significa liberdade.”

“Água significa emoção.”

“Casa significa a própria pessoa.”

Esse tipo de tradução pronta empobrece o que, na análise, pode ser muito mais interessante.

A mesma imagem pode ter sentidos completamente diferentes para pessoas diferentes.

Uma praia pode lembrar as férias mais felizes da infância para alguém e, para outra pessoa, o lugar onde recebeu uma notícia devastadora.

A imagem é a mesma.

A história não é.

Por isso, na psicanálise, importa tanto aquilo que o próprio sonhador associa ao que sonhou. A chave não está apenas no símbolo, mas na história de quem sonha. Podemos resumir isso ao dizer que, em grande parte da interpretação, “o código é privado”.

Então voltamos ao carro.

O que um carro representava para aquele homem?

O que significava receber alguma coisa?

E receber justamente daquele irmão?

Não sabemos.

E não saber, aqui, é importante.

Porque um analista que escutasse o sonho e imediatamente dissesse “seu irmão estava tentando lhe dar o que não conseguiu lhe dar em vida” poderia criar uma frase bonita.

Mas ela seria do analista.

Não necessariamente do analisando.

A análise precisa deixar espaço para que o sentido apareça nas associações de quem viveu aquela história.

E então voltamos às cartas.

Uma foi escrita pelo irmão mais novo quando ele tinha pouco mais de dezoito anos.

A outra foi escrita pelo irmão mais velho perto da morte.

A primeira seguiu seu caminho.

A segunda nunca foi lida.

Durante muito tempo, isso pareceu estar resolvido.

Mas, quando aquela relação começa a reaparecer na análise, a carta também ganha outro peso. Não porque seja preciso descobrir o que estava escrito nela. Talvez isso jamais seja descoberto. O que pode importar é outra coisa.

O que significou não buscá-la?

O que ele imaginava que encontraria?

O que não queria encontrar?

O que gostaria que estivesse escrito?

O que sentiria se descobrisse que não estava?

Ou ainda: não ter ido buscar aquela carta também pode ter sido uma forma de responder ao irmão?

Essas perguntas não são conclusões.

São caminhos.

E eventualmente essa seja uma das diferenças mais importantes entre uma leitura apressada e uma escuta analítica.

A psicanálise não pega uma história e a encaixa numa explicação pronta. Ela acompanha palavras, silêncios, lembranças, repetições, associações e sonhos para perceber por onde aquela pessoa constrói os sentidos da própria experiência.

É possível que, em algum momento, o carro deixe de ser importante.

Abra espaço para a carta.

Quem sabe a doença.

Pode surgir a diferença de idade entre os dois.

Talvez apareça uma lembrança da infância que até então nunca havia sido mencionada.

É assim que uma análise caminha.

Não necessariamente em linha reta, mas seguindo os fios que aparecem.

E é justamente aí que surge uma pergunta muito comum:

“Mas se eu achava que estava tudo resolvido?”

É perfeitamente possível acreditar nisso.

Não significa que a pessoa estivesse fingindo. Quando dizemos “isso não me incomoda mais”, podemos estar dizendo exatamente a verdade que conhecemos sobre nós naquele momento.

A psicanálise apenas introduz uma pequena complicação: nós não sabemos tudo sobre nós mesmos.

Essa é uma das ideias mais simples e, ao mesmo tempo, mais desconcertantes do inconsciente.

Há coisas que sabemos.

Há coisas que lembramos.

Há coisas que esquecemos.

E há experiências que continuam produzindo efeitos mesmo quando já construímos uma explicação consciente bastante razoável para elas.

Por isso uma sessão pode começar falando de trabalho e terminar numa lembrança da infância.

Uma frase aparentemente banal pode puxar outra.

Um nome pode abrir uma história.

Um silêncio pode chamar atenção.

Um sonho contado quase por acaso pode colocar em movimento algo que parecia quieto havia anos.

Não porque o analista tenha poderes para encontrar segredos escondidos.

Mas porque falar livremente produz associações.

E quando começamos a escutá-las, percebemos que nossa história tem mais passagens internas do que imaginávamos.

É também por isso que contar um sonho em análise não serve apenas para descobrir “o que ele significa”.

Às vezes, o sonho serve para abrir uma passagem.

A pessoa conta que estava numa casa.

Ao falar da casa, lembra da casa da avó.

Ao lembrar da avó, fala de uma tarde específica.

Naquela tarde estava o pai.

Ao falar do pai, percebe que usou exatamente a mesma frase que havia usado minutos antes para falar do marido.

O sonho não “significava o pai”.

O sonho abriu um caminho.

E talvez seja essa uma forma mais interessante de pensar os sonhos na psicanálise.

Não como enigmas que precisam ser solucionados, mas como produções que podem ser escutadas.

Um mesmo sonho, inclusive, pode conduzir a sentidos diferentes. A teoria psicanalítica fala em sobredeterminação justamente para mostrar que um único elemento pode se ligar a várias cadeias de pensamentos e afetos, sem que exista uma interpretação final capaz de encerrar tudo.

Voltamos, então, ao homem e à carta que ele nunca leu.

Há algo de profundamente humano nessa história.

Um jovem escreveu uma carta ao irmão.

Anos depois, soube que o irmão também havia escrito uma para ele.

Não a buscou.

O irmão morreu.

Depois voltou nos sonhos.

Em um deles, apareceu trazendo um presente.

Não sabemos o que tudo isso significa para aquele homem.

E seria contraditório terminar um texto sobre psicanálise oferecendo ao leitor uma resposta pronta.

Poder ser que a contribuição da análise esteja justamente em outra coisa: permitir que ele perceba que ainda existem perguntas.

A carta real talvez tivesse poucas páginas.

A relação entre os dois, não.

Ela contém infância, diferenças, ressentimentos, afetos, afastamentos, coisas ditas, coisas não ditas, doença, morte, a carta enviada, a carta recusada e tudo o que continuou a ser vivido depois disso.

Nenhuma interpretação cabe inteira aí.

Os sonhos também não precisam resolver essa história.

Mas podem continuar trazendo partes dela para a conversa.

E talvez seja essa uma boa maneira de compreender por que contamos nossos sonhos em análise.

Não para que alguém nos diga o futuro.

Nem para receber uma tradução pronta do passado.

Contamos porque, enquanto dormimos, às vezes nossa história encontra maneiras muito particulares de continuar falando.

E a psicanálise oferece um lugar onde podemos escutá-la.

Até quando jurávamos que aquele assunto já estava encerrado.


Thayana Macêdo

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